Recentemente tenho movimentado de forma intensa a minha conta do Twitter. Ao buscar a palavra estatística, percebi que aproximadamente 9 em cada 10 citações são uma relação de aversão para com a ciência. Confesso que isso me deixou preocupado.

A grande maioria vem de alunos ou profissionais de outras áreas do conhecimento, como por exemplo, as Ciências Sociais. Eu imagino que não tiveram uma experiência feliz com as exatas, e provavelmente desenvolveram algum tipo de trauma.

Muitos deles se perguntam: eu escolhi uma área das Ciências Sociais, preciso mesmo trabalhar com números? Eu vou trabalhar com pessoas, e não com computadores, preciso de estatística? Qual a importância da estatística na minha profissão? Ela é mesmo importante?

A estatística aplicada às ciências sociais é importante sim! Eu poderia citar uma infinidade de exemplos, como:

  • Qual é o efeito de uma terapia familiar entre jovens de 10 a 18 anos que presenciaram o divórcio de seus pais? Ela é eficiente? Para quais casos ela funciona mais?
  • O quanto a ansiedade do aluno interfere nas provas do vestibular? Existe diferença entre homens e mulheres? Existe diferença entre quem está prestando o vestibular pela 1ª ou 3ª vez?
  • Será que a taxa de natalidade de Porto Alegre é parecida com a de Recife? Existe diferença entre o Índice de Mortalidade Infantil entre as regiões Nordeste e Sudeste?

Mas eu não vou generalizar demais. Vou comentar sobre um caso em especial que chamou a minha atenção, e a do mundo inteiro, no final do mês passado: a situação demográfica da China.

Como a estatística poderia ter ajudado? Qual a importância da demografia no Planejamento demográfico de um país? A crise da China poderia ter sido evitada?

Para entender melhor a situação, vamos abordar três temas: situação demográfica da China; Demografia; Estatística.

Situação demográfica da China

A China é o país mais populoso do mundo, com o número de habitantes estimado em 1,3 bilhões; mas bem que poderia ter mais (cerca de 400 milhões de nascimentos foram evitados, segundo o governo chinês); se não fosse uma medida adotada pelo governo há 35 anos atrás.

Em 1980, a China decidiu adotar uma medida anti-natalidade, conhecida como “política do filho único”. O objetivo era “travar” o crescimento da população para limitar os gastos de água e outros recursos. No entanto, essa restrição causou sérios problemas ao país como: o crescimento indiscriminado de crianças abandonadas nas ruas ou entregues a instituições de acolhimento; o aumento com gastos da previdência social; a queda da população economicamente ativa; e o envelhecimento populacional, como podemos ver no gráfico.

Cada vez menos jovens sustentam mais velhos

Cada vez menos jovens sustentam mais velhos

A “política do filho único” era obrigatória, e caso os chineses não cumprissem o acordo, sofriam várias consequências, como a perda do direito a programas sociais, obrigação de pagar multas (penalidade), e podiam até perder o emprego.

Para que isso não acontecesse, o governo chinês tomava medidas de controle de natalidade, como a comunicação contínua sobre os métodos de prevenção à gravidez (camisinha, anticoncepcionais); procedimentos cirúrgicos (forçados) como vasectomia e laqueadura, principalmente para quem já tinha 1 filho.

Mesmo assim, com todo esse “engajamento” do governo chinês, muitas crianças morreram, principalmente do sexo feminino por causa da cultura arraigada da China (a perpetuação do nome da família é conseguida única e exclusivamente por descendentes homens); muitas mulheres foram retiradas de suas casas, e presas para execução do aborto; e casais vendiam seus filhos para casais estéreis, a fim de não sofrer as punições do governo.

A baixa taxa de natalidade causou impactos profundos na economia da China. Em 35 anos, o percentual de crescimento vegetativo foi de 2,6% para 0,6%. A taxa de fecundidade é uma das mais baixas do mundo (a Alemanha é a mais baixa). Em 2013, a taxa era de 1,17 filho por mulher; um índice bem abaixo do necessário para substituir a população a cada geração, que é de 2,1.

Por causa disso, a China será o primeiro país a envelhecer antes de se tornar rica. Até 2050, mais de 25% da população terá mais de 65 anos. Em algumas regiões, como Rudong, cerca de 30% da população está acima de 50 anos. Como o número de crianças diminuiu, metade das escolas primárias e secundárias fecharam.

O envelhecimento da população chinesa irá desacelerar a economia, na medida em que o número de pessoas em idade ativa diminui e a proporção entre contribuintes e pensionistas continua a cair. Diante deste cenário, podemos considerar a China como uma potência mundial? O que acontecerá nos próximos 25 anos? A economia será sustentável? O país conseguirá restabelecer o equilíbrio populacional?

O formato da pirâmide etária mudou muito. Foram 35 anos de política que deixaram marcas. Agora, a China aboliu a “política do filho único” com o objetivo de balancear o desenvolvimento populacional e enfrentar o desafio de uma população que envelhece. Será que ainda dá tempo? Será que a cultura de um país inteiro foi modificada? As famílias estão preparadas economicamente e emocionalmente para criar 2 filhos? Em pesquisa recente, cerca de 90% dos casais elegíveis para ter mais 1 filho preferem não o fazer.

Demografia 

O termo demografia foi utilizado pela primeira vez em 1855, por Achille Guillard, em seu livro Eléments de Statistique Humaine ou Démographie Comparée (Elementos de Estatística Humana ou Demografia Comparada). A origem da palavra demografia vem de demo: povo; e grafia: estudo. De fato, é o estudo do povo ou população. Mas a partir da segunda metade do século XX, os estudos de demografia começaram a ser aplicados em animais e plantas.

A demografia é uma área da ciência geográfica que estuda a dinâmica populacional humana. O seu objeto de estudo engloba as estatísticas, estrutura e distribuição das diversas populações humanas. E como nós calculamos essa dinâmica? Basicamente ela é composta por 4 variáveis: natalidade, mortalidade, migrações e envelhecimentoE a partir daí, podemos fazer vários cálculos e projeções para tentar entender o “movimento demográfico” de uma região ou país.

O estudo da dinâmica populacional é importante para observarmos o que acontece em equilíbrio. O ideal é que o número de indivíduos que nascem somados ao número de indivíduos que chegam a população, seja o mais próximo possível do número de indivíduos que morrem somados ao número de indivíduos que saem da população.

A análise demográfica também é baseada nas características de toda uma sociedade, definida por critérios como educação, nacionalidade, religião e etnia. Ela engloba estudos individuais e independentes, mas também pode desenvolver projetos em relação à população, como o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

A demografia é algo que deve ser levado a sério em todos países. Alemanha, Japão, Itália e até o Brasil são países onde a população envelhece gradativamente.

A realidade social do Brasil faz com que os próprios indivíduos instituam uma cultura anti-natalista. Os elevados gastos com habitação, transporte, segurança, alimentação, e o foco no desenvolvimento profissional; assim como o alto índice de desemprego (ainda mais em ano de crise); a dificuldade de encontrar vagas em creches e escolas públicas, são motivos para que os casais não tenham filhos.

Por causa disso, o Brasil é comparado a países que adotaram rígidos controles de natalidade.

Será que o Brasil será a China no futuro?

Estatística

Onde entra a estatística com tudo isso acontecendo? Como ela poderia ajudar? É possível entender o cenário atual e prever o futuro?

De maneira simples, a estatística ajudaria no planejamento e coleta, organização dos dados, processamento, análise, interpretação e visualização das informações. Apenas com técnicas descritivas já seria possível entender a evolução e o comportamento da dinâmica populacional de uma região ou país determinado.

Analisar o crescimento demográfico, as taxas de imigração e emigração, taxas de natalidade e mortalidade, expectativa de vida, distribuição por sexo e faixa etária, população economicamente ativa, crescimento vegetativoepidemias e endemias, entre outras.

Considerando o cenário atual, o governo do país terá subsídios e condições para prever os impactos de uma possível mudança demográfica na estrutura etária de uma nação. Seria possível dizer, quais os problemas poderiam surgir, e como solucioná-los.

Eu poderia falar muito mais, mas acredito que o texto já tenha ficado extenso. Sugiro que vocês acessem a página do IBGE, na aba população. Lá vocês terão acesso a uma infinidade de indicadores sociais. Divirtam-se, e até a próxima!

E continuamos crescendo …

 


Fontes

Burkitt, Laurie. “China abandons one-child policy”. The Wall Street Journal | Wolrd Asia; october 30, 2015: http://on.wsj.com/2fW8RPr

Caleiro, João Pedro. “Por que a China aboliu a regra do filho único em 2 gráficos”. Exame.com, 29 de outubro de 2015: http://abr.ai/2fSiXFv

Ghitis, Frida. “Don’t be fooled by China ending its one-child policy”. CNN Breaking News; october 29, 2015: http://cnn.it/2gRBl19

Teo, Esther. “End of one-child policy: too little, too late?”. The Straits Times | Asia Journal; october 31, 2015: http://bit.ly/2g4bzWo

Worstall, Tim. “China’s two child policy: it’s all demographics or productivity in the end”. Forbes | Economics & Finance; october 29, 2015: http://bit.ly/2gLUX3W

Material usado

Imagem da Pirâmide da China: http://bit.ly/1NIjwLD

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