A Estatística é uma ciência que se dedica a coletar, organizar, analisar, interpretar e apresentar resultados com o objetivo de melhorar as tomadas de decisões, certo? E por que muitas empresas, instituições, profissionais, e até mesmo eu e você, às vezes relutamos tanto em usá-la de forma mais eficiente e convincente?

Aposte na estatística! Convença sua empresa da real importância dessa ferramenta. E coloque um ‘Royal Straight Flush’ na mão dela. Quer apostar que os resultados virão?

Resolvi falar sobre o fato da maioria das organizações não apostarem no valor que a Estatística tem, depois de ver o filme ‘Uma grande aposta’ (The Big Short) no cinema. A história é verdadeira, e baseada no livro “A jogada do século”, de Michael Lewis, lançado em 2011.

Sem dar spoilers, o filme fala sobre a crise financeira mundial ocorrida em 2008. Quem não se lembra disso? Milhões de pessoas perdendo seus empregos, suas casas, seu dinheiro. Morando debaixo de pontes, e entrando em depressão. Uma população desolada.

Mas uma coisa me chamou a atenção no início do filme. Um investidor previu que o mercado imobiliário quebraria, avisou as autoridades, e nada foi feito. Note, que eu falei previu. Baseado em análises estatísticas dos históricos de créditos imobiliários, nos Estados Unidos, concedidos pelos maiores bancos do país, à taxa cada vez mais abusivas. As taxas básicas de juros subiram de 1% para 5,25% em pouquíssimo tempo, e os créditos eram concedidos sem nenhum tipo de avaliação. Quando todo mundo estava se divertindo, e não prestava atenção no que estava acontecendo, alguém estava analisando os dados, e enxergando coisas diferentes da maioria da população. Não é isso que um estatístico faz? Analisa dados, fatos, mercado, negócio, e conclui baseado em números? Assim como aconteceu no filme, temos que saber que fatos presentes não preveem o futuro.

Sem contar o filme vou construir um enredo para você.

Um investidor analisou os números dos créditos imobiliários nos EUA, e percebeu algo diferente e realmente muito interessante. Ele percebeu que as taxas básicas de juros para crédito imobiliário estavam subindo (em 2005 era de 1%, e passaria de 5% em 2008). E que se o sistema financeiro continuasse operando dessa forma, a economia dos EUA, e boa parte do mundo iria quebrar (alguns países copiaram o modelo); pois o mercado imobiliário dos EUA estava totalmente apoiado em empréstimos de alto risco.

Utilizando análise estatística, fazendo modelos de previsão, conhecendo um pouco de economia e estudando o comportamento do povo americano, o investidor chegou à conclusão que seria uma questão de tempo para a e economia sucumbir.

Como na época o mercado aparentava estar sólido, de nada adiantou mostrar as análises estatísticas aos envolvidos, porque ninguém queria enxergar a verdade: o povo americano estava sendo esmagado pelos grandes bancos americanos (cada vez mais gananciosos, oferecendo mais créditos para pessoas que não poderiam pagar).

Os bancos são reconhecidos como as instituições que mais utilizam análise estatística. Fazem análises e modelos para quase tudo: medir a rentabilidade de um produto; construir um modelo de fraude; segmentar clientes para utilizar um determinado cartão. E por que os bancos americanos deixaram isso acontecer? Cadê os números?

O investidor que descobriu a falha estava sozinho nessa. Ele viu o que ninguém mais poderia ou queria ver. Toda a economia mundial poderia entrar em colapso. E, entrou! Nem Alan Greenspan, um economista renomado, que por 20 anos foi Presidente do Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos, previu esse acontecimento.

Os empréstimos de alto risco concedidos, pelos maiores bancos, ao povo americano, quebraram toda uma economia. Os bancos permitiam que as pessoas que não tinham recursos comprassem uma ou mais casas à crédito. Imigrantes, pobres, desempregados, strippers. Todos podiam comprar um imóvel.

Todo mundo podia comprar um imóvel

Todo mundo podia comprar um imóvel

Quando a economia desabou em 2008, o povo americano se sentiu enganado. A crise deixou mais de 8 milhões de desempregados, e 6 milhões sem lugar para morar. A recessão econômica chegava primeiro aos EUA, e depois a países europeus.

E aí eu pergunto a você: o que as pessoas influentes, que tiveram acesso as análises estatísticas (e não fizeram nada), pensaram depois que a previsão se tornou realidade? A análise de comportamento realmente não quer dizer nada quando a situação no presente diz o contrário? De que adiantam os números agora, se o fato já aconteceu?

A tragédia dos derivativos imobiliários nos EUA aconteceu porque havia grupos isolados, tomadores de decisão, que deixaram de fazer as perguntas certas ou ignoraram as informações negativas, caindo numa espiral descendente de autoafirmação.

Quando a informação flui mais livremente no interior de um grupo, as melhores decisões podem ser tomadas. Mas quando acontecem suposições do tipo “sabemos tudo o que precisamos saber”, ocorrem enganos que podem acabar com um negócio, uma empresa ou um país.

Riscos inteligentes são baseados numa ampla e voraz reunião de dados que contrastam com uma mera intuição; decisões grosseiras são construídas a partir de uma base de dados estreita demais, que não nos permite concluir algo válido, e oferecer uma nova perspectiva.

Outro exemplo, diferente da crise imobiliária de 2008, mas que também remete à análise de dados, foi a decisão do Presidente George W. Bush e de seus assessores próximos, de invadir o Iraque baseados em inimagináveis “armas de destruição em massa”.

Tudo bem que esses são eventos gigantescos, e que mexeram com uma boa parte da população mundial. Mas traga esses exemplos para o seu dia a dia. Como é no seu trabalho? Na sua empresa? É comum, profissionais que não são estatísticos ou que trabalham com análise de dados, subestimarem seus resultados? Até quando, a intuição vai prevalecer de forma imperativa sobre aquilo que algumas pessoas não querem ver?

Talvez, convencer as pessoas dos resultados que você mostrou, seja mais difícil do que chegar nos próprios resultados. Mas isso faz parte do nosso trabalho e da nossa missão. O importante é apostar na Estatística mais do que nunca.

E aí, você está pronto para apostar? E a empresa que você trabalha está?

Sugestão: Assista o filme “Uma grande aposta” ou “The Big Short” nos cinemas. 


Fontes

A grande aposta. Direção: Adam McKay. Paramount Pictures, 2015: http://nflx.it/2fHMFKk

A. O. Scott. “Review: In the big short, economic collapse for fun and profit”. The New York Times, December 10, 2015: http://nyti.ms/2fHRq6r

Belloni, Matthew. “The big short stars , director gather to debate Wall Street, Trump and Hillary vs. Bernie”. The Hollywood Reporter, December 2, 2015: http://bit.ly/2fmLjq3

Amplie seu conhecimento

Lewis, Michael. “A jogada do século: a história do colapso financeiro de 2008″. Best Seller, 2011, 240p: http://amzn.to/2fmRiey

Lewis, Michael. “Flash Boys: Revolta em Wall Street”. Intrínseca, 2014, 240p: http://amzn.to/2eSTcTz

Material usado

Imagem do maço de dólares no anzol: http://bit.ly/2f3NBHC

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