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As Estatísticas que Contradizem Nossa Percepção

As Estatísticas que Contradizem Nossa Percepção

O que você responderia se lhe perguntassem se o mundo está se tornando um lugar melhor ou pior para viver? Você acha que há mais pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza hoje, ou há 200 anos atrás? Atualmente, temos ou não mais condições de cuidar da nossa saúde? Qual a sua percepção sobre a educação no mundo?

Responda a essas perguntas e depois volte a atenção para os gráficos no início do texto. Analise com atenção e agora responda de novo. Isso mesmo! Estamos acostumados a ter uma falsa percepção sobre a nossas condições de vida na sociedade. Isso acontece porque estamos atentos apenas ao presente. Mas se olharmos historicamente, as estatísticas contradizem a nossa percepção sobre o mundo.

Foi pensando nesse contexto, que eu resolvi recomendar a você, um texto que eu li em janeiro deste ano.

O texto escrito por Max Roser, um economista da Universidade de Oxford, mostra muito bem, como as condições de vida das pessoas mudaram para melhor em 200 anos de história.

Ele analisou dados históricos de 200 anos sobre a pobreza, a alfabetização, a saúde, a liberdade e a educação. Os resultados obtidos foram bem diferentes do que as pessoas costumam achar. Só para você ter uma ideia, uma pesquisa foi realizada em alguns países, e apenas 10% dos suecos disseram acreditar que o mundo está melhorando; nos Estados Unidos, esse número foi ainda menor, 6%; e entre os alemães, a resposta positiva foi de apenas 4%. O que nos levaria a acreditar que no Brasil as respostas seriam muito diferentes? Reflita!

As condições de vida citadas foram avaliadas por 5 gráficos. Eu vou fazer uma síntese de cada um deles aqui, sem dar spoilers, porque eu gostaria muito que você lesse o texto do Max Roser na íntegra. Então vamos lá!

1. Pobreza

Em 1820, a riqueza estava nas mãos de poucas pessoas e os recursos para se viver eram mal distribuídos. Apenas uma pequena minoria vivia com padrões elevados, enquanto a maioria das pessoas estava na extrema pobreza. Essa situação começou a mudar com o segundo ciclo da revolução industrial, quando o progresso começou a aparecer em alguns países. O ferro e o aço começaram a ser produzidos, navios e ferrovias começaram a ser construídos em larga escala.

O aumento da produtividade nas indústrias foi o que permitiu começar a tirar as pessoas da pobreza. Mas mesmo com a revolução industrial, a situação só mudou significativamente, nos últimos 30 anos; quando o progresso tecnológico começou a ficar cada vez mais rápido.

2. Alfabetização

Em 1800, apenas uma pequena parcela da população mundial sabia ler e escrever. Para se ter uma ideia, nessa época, 9 a cada 10 pessoas não sabiam ler. Mas não precisa ir longe assim. Pergunte aos seus avós quantas pessoas sabiam ler quando eles eram crianças, e você poderá tirar suas próprias conclusões.

Dois séculos atrás, estimava-se que apenas 100 milhões de pessoas eram alfabetizadas. Atualmente, estima-se que 4,6 bilhões de pessoas, com mais de 15 anos de idade, já estejam alfabetizadas.

3. Saúde

Segundo Max Roser, “uma razão pela qual não vemos progresso na saúde, é porque não temos consciência do quão ruim ela era no passado”

Duzentos anos atrás, as condições básicas de saúde praticamente não existiam. Quase metade das crianças morriam antes de completar 5 anos de idade. Muitos soldados morriam nas guerras, não em batalhas, mas nos leitos de hospitais improvisados. Más condições, como falta de higiene no local e ausência de luz, matavam mais do que a guerra, como falamos no texto “A Dama da Lâmpada”.

Depois dessas mudanças, vieram a descoberta da importância de se lavar as mãos, o desenvolvimento de antibióticos e vacinas, que ajudaram o mundo a melhorar as condições da saúde pública. Os resultados foram incríveis: antes 43% das crianças morriam antes dos 5 anos de idade; hoje, esse índice é inferior a 4,3%.

4. Liberdade

A liberdade de expressão e política está no centro do desenvolvimento de uma sociedade. Em 200 anos, os regimes políticos mudaram absurdamente. Países deixaram de ser colônias e se tornaram independentes. O regime democrático saiu quase do zero para atingir mais da metade da população mundial (quase 4 bilhões de pessoas). Regimes divididos, como a anocracia, já tiveram seus tempos áureos; hoje correspondem a 7,5% da população mundial.

5. Educação

A educação está mais importante do que nunca e muitos aspectos estão em fase de implementação para que o ensino melhore ainda mais.

Há alguns anos, já é possível você e eu, nos tornarmos responsáveis pela nossa própria educação. O que eu quero dizer com isso? Não precisamos mais esperar para adquirir conhecimento seguindo apenas o cronograma do ensino tradicional. Com o advento da internet e a explosão de cursos e vídeos online, podemos aprender o que quisermos, a qualquer hora e de qualquer lugar.

Segundo um estudo do International Institute for Applied Systems Analysis – IIASA, mais de 34% da população mundial terá formação superior e 37% formação média em 2100. O mesmo estudo estima que para o mesmo ano, menos de 1% das pessoas não terá nenhum tipo de educação. Isso é ótimo!

O que podemos aprender com o texto de Max Roser? 

Quando analisamos um conjunto de dados ao longo do tempo, é muito importante que se determine com muito cuidado qual será o intervalo de tempo da sua análise. Muito do que foi apresentado não teria muita relevância se fosse estabelecido um pequeno intervalo de tempo, como por exemplo, a alfabetização, que mudou muito nos últimos 40 anos. Além disso, antes de conceder uma opinião, é muito importante conhecer os números sobre determinada situação.

Fica a recomendação de aplicar os ensinamentos dessa pesquisa no seu dia a dia. Quanto mais dados nós tivermos ao longo do tempo, mais entenderemos nosso presente e poderemos prever o futuro. Com mais dados de qualidade é possível entender se estamos melhorando ou piorando.

No fim, a mensagem que Max Roser nos passa é encorajadora, pois ele nos mostra por meio de suas análises, o quanto melhoramos em 200 anos. Mostra o que éramos, o que somos e o que podemos ser.

A nossa percepção e opinião sobre algo, da qual não temos evidências, é apenas uma resposta imediata para aquilo que não conhecemos.

P.S: Leia na íntegra o texto do Max Roser AQUI.

Considerações 

Observação: Esse texto não é uma tradução do artigo do Roser. Ele é um texto criado por mim, para que você faça uma reflexão sobre a importância de analisar e conhecer os dados dentro de um contexto histórico. O artigo do Roser e o meu post sobre “Estatística: A Ciência que trata de nós mesmos”, serviram de inspiração para eu escrever o texto.

Ressalvo ainda, que a imagem do gráfico utilizado no texto foi desenvolvido por Max Roser, e a fonte pode ser conferida logo abaixo.

Se você gostou da dica de hoje, deixa aqui seu comentário. Se não gostou ou quiser sugerir outro tipo de material, escreve para gente, que lemos tudo.

Abraço e até a próxima!


Fontes 

Max Roser (2017). “A History of Global Living Conditions in 5 Charts. Publicado em OurWorldData.org. Disponível em https://ourworldindata.org/a-history-of-global-living-conditions-in-5-charts/

Amplie seu conhecimento

YouTube. (2015, outubro 30). Max Roser: Good Data Will Make You an Economic Optimist | WIRED 2015 | WIRED UK [arquivo de video]. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=519RSd65yFw

Material usado

Imagem dos 6 gráficos que representam as condições de vida: http://bit.ly/2h2bhwt


  • Dener Luiz da Silva

    Olá Raniere, bom seu texto. Só faltou refletir um pouco sobre o significado de pobreza, apenas para pegar um dos temas discutidos, em 1800 e agora. De fato, se fizermos uma equivalência cairemos em um outro erro “presentismo” de analisar o passado aos olhos do presente. Resumindo: ser “extremamente pobre” em 1800 não era a mesma coisa que ser “extremamente pobre” hoje. Abraços, votos de sucesso,
    dener

    • Olá Dener. Muito obrigado por compartilhar sua experiência e percepção sobre o tema da pobreza, que inclusive foi amplamente discutido no Brasil.

      Abraços.

Raniere Ramos


Estatístico, Blogueiro, Conselheiro do CONRE-4, aspirante a palestrante. Louco por constante aprendizado. Minha missão é promover a estatística de um jeito simples, divertido e ao alcance de todos, como você nunca viu antes.

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