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Entrevista: O que é ser Estatístico

Entrevista: O que é ser Estatístico

Sarah Maria, de 16 anos, acompanha o blog há algum tempo. Por gostar bastante de observar os gráficos, admirar os dados e tomar conhecimento através deles sobre o mundo em que vivemos, ela está pensando em cursar estatística. Porém, ela está com bastante dúvida sobre a profissão de estatístico.

Acontece, que na escola da Sarah, os alunos estão recebendo orientação vocacional. Além de receber a orientação, os alunos precisam realizar uma atividade. Você sabe qual é a atividade? Cada aluno deve entrevistar um profissional da carreira que deseja seguir e apresentar para a turma na sala de aula. Foi nesse momento que Sarah decidiu entrar em contato para me entrevistar. Confesso que ao conversar com ela, fiquei muito emocionado e feliz por alguém tão jovem querer descobrir como é ser estatístico.

As perguntas da Sarah foram tão boas que resolvemos compartilhar a entrevista com você. Quem sabe a dúvida dela também pode ser a sua. Então, vamos lá, que a entrevista da Sarah vai começar.

O que um estatístico faz?

Mais do que realizar cálculos, analisar dados e elaborar gráficos, o estatístico é responsável por resolver problemas da vida real, seja na empresa ou na sociedade. Um estatístico transforma dados em informações relevantes para tomada de decisão. Eu não consigo imaginar uma área que não precise de conhecimentos da estatística associadas às novas tecnologias.

Entre as principais atividades exercidas por estatísticos, podemos citar o planejamento de pesquisas de opinião, desenvolvimento de modelos estatísticos para segmentos de mercado, extração e análise de dados de diferentes sistemas, realização de analises descritivas, apoio analítico as demais áreas da empresa.

Quais as principais dificuldades que você encontrou ao cursar estatística?

Grade curricular pesada em matemática, pouca estatística nos dois primeiros anos e falta de correlação entre a teoria e a prática (isso me desmotivou bastante). Como aluno, eu não conseguia entender como aplicaria o que eu estava aprendendo, na vida real. A vida acadêmica se resumia a fazer listas infinitas de exercícios, e ao meu ver, esse modelo prejudicava os alunos que queriam ir para o mercado de trabalho sem ter que passar por um mestrado ou doutorado.

Outra dificuldade que eu tive foi referente ao período do curso, que era integral. Com o dia repleto de aulas e atividades, era quase impossível conseguir um estágio ou trabalhar sem se prejudicar. Para quem precisa de dinheiro para se manter, como eu precisava, esse é um ponto crucial.

O que mais te chamou a atenção ao cursar estatística?

Ao cursar estatística fiquei impressionado com a matemática ensinada no curso e com as infindáveis aplicações da estatística, que infelizmente tive mais contato a partir do 6° semestre. Encontrar soluções para os mais variados problemas era algo que me desafiava diariamente, e esse sentimento se tornou mais intenso quando consegui o meu 1° estágio na área.

Simplesmente, me apaixonei pela estatística por ela me dar oportunidade de trabalhar em qualquer área do conhecimento. Isso foi o que mais me chamou a atenção. Com a estatística, eu poderia mudar de área a qualquer momento, e isso me fascinava.

Você acha que é importante que o aluno possua algum contato com programação antes de entrar na faculdade?

Sim! Na verdade, eu acredito que programação deveria ser ensinada nas escolas, assim como o inglês. As crianças deveriam começar a desenvolver seu raciocínio lógico desde cedo, independente da profissão que escolhessem no futuro.

No entanto, se você não aprendeu antes de entrar na faculdade, isso não é o fim do mundo. Programação é algo que você pode aprender a qualquer momento. As tecnologias vêm e vão, e o que você precisa desenvolver é a capacidade de aprender.

No final das contas, eu acredito que todos deveriam aprender a programar, pois ensina a pensar e a resolver problemas.

Qual a sua rotina de trabalho?

O trabalho do estatístico varia muito e para mim é difícil definir uma rotina, mas vou especificar a minha de acordo com o que estou fazendo atualmente.

Eu sou responsável por coletar e analisar os dados econômicos e financeiros de seguradoras de plano de saúde. Com esses dados, a equipe e eu desenvolvemos estatísticas e indicadores de acompanhamento para cada uma delas, e apresentamos para a nossa Diretoria. Em cima dos resultados, partimos para uma segunda etapa da análise, bem mais detalhada que a primeira, que envolve diagnóstico e possíveis análises preditivas.

Além disso, qualquer tipo de análise estatística realizada na empresa, entra no rol de atribuições e eu preciso realizá-la. Basicamente, eu extraio dados de diferentes sistemas e em diversos formatos; organizo, “limpo” e valido os dados; calculo estatísticas resumo; apresento para a equipe.

Quais as projeções futuras para o mercado de trabalho do estatístico?

Com o avanço de novas tecnologias, o aumento exponencial na disponibilidade de dados e o compartilhamento de conhecimento na internet, a profissão de estatístico está em evolução. Nunca se viu tanta oferta de trabalho para estatístico ou pelo menos para cargos que ele pode ocupar, já que novas carreiras estão surgindo, como a de Cientista de Dados.

Uma das principais Agências dos EUA nas áreas de Economia e Estatística projetou que empregos para estatísticos crescerão 34% entre 2014 e 2024. Em breve esses números devem refletir no Brasil. Atualmente, os estatísticos formados não conseguem preencher todas as vagas abertas, e algumas empresas chegam a ficar mais de 6 meses a procura de um candidato.

No meu ponto de vista, a demanda por estatísticos vai crescer ainda mais e o profissional terá um papel decisivo nas organizações. Eu diria até, que o estatístico é um profissional curinga e imprescindível para as empresas e para a sociedade.

Com quais áreas da estatística você já trabalhou?

Eu já trabalhei nas áreas da educação, saúde, agronegócio, médica, engenharia e saúde.

O que você fazia em algumas dessas áreas?

Quando trabalhei com agronegócio, eu participei de um projeto cujo objetivo era identificar regiões no estado de São Paulo que fossem similares em determinados tipos de agricultura e pecuária. Minhas atividades eram coletar e analisar dados de variáveis socioeconômicas de fontes oficiais, e propor o agrupamento de municípios em determinadas regiões, para que eles pudessem receber incentivos financeiros e se desenvolver regionalmente.

Quais os principais desafios e vantagens de ser um Estatístico?

Eu acredito que o principal desafio hoje é decorrente das mudanças tecnológicas. Temos uma necessidade urgente de aprender a trabalhar com softwares e escrever códigos de programação. E por que eu acredito que esse é o maior desafio? Porque o que o mercado demanda é diferente do que aprendemos na graduação em estatística. Por isso, sempre falo da necessidade do aluno “correr por fora”; aprender sozinho. Outro desafio muito importante, é entender do negócio a qual você está inserido. Se você trabalha em um hospital, precisa entender como funciona a operação e conhecer as nuances do mercado hospitalar. Como diria um amigo meu: “se você não conhece o dado; então você não conhece a informação”.

Vantagens de ser um estatístico, eu citaria a oportunidade de conhecer negócios como ninguém, já que o estatístico trabalha com todo tipo de dado; oportunidades de influenciar diretamente tomadas de decisões nas empresas; trabalhar com equipes multidisciplinares; responder perguntas que outros profissionais não conseguem responder; estar em alta no mercado; ser necessário em situações de boa economia e em épocas de crise.

Em sua opinião, quais as principais características que um estatístico deve possuir?

Vou responder a esta pergunta pensando em um estatístico do futuro, que transcende o estatístico tradicional de 15 ou 20 anos atrás. Eu acredito que as principais características são o raciocínio lógico, habilidade de se comunicar com clareza e assertividade, saber trabalhar em equipe, ser crítico sobre os dados, saber programar, comunicar-se em outros idiomas, ser curioso, e ter muita vontade de aprender.

Em sua opinião, o que seria mais importante: gostar de matemática ou ser bom em matemática?

Gostar de matemática. Ela é a nossa base do conhecimento.

Por último, um conselho: gosto muito de estudar as teorias da psicologia, tanto é que minha outra opção seria esse curso. Existe alguma área da Estatística que se relaciona com Psicologia?

Sim, existe! Ela se chama Psicometria. É um ramo da psicologia aliada à estatística que se dedica ao estudo e à aplicação de técnicas para mensurar de forma adequada, o comportamento de indivíduos ou grupos. Você pode, por exemplo, analisar a percepção de stress das pessoas no trabalho ou medir a autoestima de mulheres que acabaram de ter um aborto. É a estatística aplicada a medidas de comportamento psicológico.

 

Um abraço e até o próximo texto!


Material usado

Imagem da entrevista: http://bit.ly/2bHkrNk


  • Sarah Maria

    Olá Raniere,

    Queria agradecer todo o apoio que recebi em relação a entrevista e dizer que quando mostrei a entrevista para minhas amigas elas ficaram impressionadas. Algumas não tinham noção do que era a Estatística em si, e quando leram sua entrevista e esse post, gostaram muito do curso. Não posso dizer que elas também vão fazer Estatística porque não gostam muito de matemática, mas digo que a visão delas sobre Estatística mudou.

    • Olá Sarah,

      Eu que agradeço o seu contato e a confiança que você tem no meu trabalho. Espero ter ajudado você e mais uma centena de pessoas que tinham as mesmas dúvidas ou ainda sequer conheciam a profissão, como suas amigas.

      Quando você passar no vestibular para estatística, passa por aqui para nos contar!

      Abraço!

  • Doris S M Fontes

    Ótima entrevista, Raniere. Concordo com tudo que disse sobre o curso, de ter os dois primeiros anos muito focados em matemática e parecer um pouco desconexo com os dois últimos anos, quando mergulhamos mais em teoria estatística. Isso me incomoda um pouco e me surpreende que o curso AINDA seja assim. Eu comecei o curso no final dos anos 70 e terminei no comecinho dos 80, ou seja, faz 35 anos que eu me formei e a estrutura do curso é basicamente igual. Houve evolução no conteúdo programático, claro, e um salto na qualidade dos docentes (hoje em dia quase 100% com doutorado em estatística ou área bem correlacionadas), mas estruturalmente não evoluiu muito, eu acho. Não adianta os deptos sonharem com uma formação meramente teórica/acadêmica pensando (desejando) que o formando vá para a pós. O mercado está aí contratando todo egresso disponível e acho que seria interessante que a própria academia ajudasse o aluno a se preparar para a vida profissional. Acho importante manter o nível de matemática e teoria estatística, mas poderia haver um pouco mais de computação e exercícios mão-ma-massa (ambos andam muito bem juntos!) — poderiam ser até como optativas.

    • Doris, obrigado por suas palavras e por compartilhar sua experiência. Concordo em manter o nível de matemática e estatística, mas elas poderiam caminhar juntas, com mais exemplos práticos da vida real e aliados às tecnologias (programação e banco de dados, por exemplo). No curso de graduação, a estatística demora muito a aparecer, e já cheguei a me perguntar se esse não seria um dos pontos cruciais na alta evasão dos alunos.

      Também observei os pontos positivos que você citou: professores mais qualificados, evolução do conteúdo programático, estrutura das universidades. Ajuda, mais ainda precisamos de mais para poder disponibilizar o aluno recém-formado com mais background no mercado. Pelo menos no que tange a resolver problemas com soluções que dependam de ferramentas estatísticas.

      Acredito que nosso papel é ajudar no que for possível. Não sou professor, mas sempre oriento os alunos a estudarem além do conteúdo da faculdade. Incentivo o estudo de idiomas além do inglês, conhecer linguagens de programação, aprender técnicas de apresentação, e por aí vai. Sabemos que o estatístico é um profissional hibrido. É preciso ter interesse em conhecer coisas fora da nossa área de conhecimento. Eu gosto muito de aprender. Quando falo que é um hobby, quase ninguém acredita.

      Doris, vou parando por aqui! Mais uma vez obrigado. Sou fã do seu trabalho. Tenha certeza que você é uma das minhas fontes de inspiração. Em breve nos conheceremos em Belo Horizonte. Abraço!

      • Doris S M Fontes

        Sim, será um enorme prazer encontrá-lo em BH e, juntos com os demais participantes, discutir o cenário atual dos profissionais e como podemos ajudar a diminuir a tamanho da evasão em estatística e qualificar os formandos para um mercado bem diferente do que eles veem nas salas de aula.

        • Com certeza! Estou ansioso por esse momento que será de muito aprendizado e reflexão.

Raniere Ramos


Estatístico, Blogueiro, Conselheiro do CONRE-4, aspirante a palestrante. Louco por constante aprendizado. Minha missão é promover a estatística de um jeito simples, divertido e ao alcance de todos, como você nunca viu antes.

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