A Importância de se Comunicar a Incerteza

Você provavelmente já sabe que a Estatística é a ciência que trata das incertezas. E que talvez por causa disso, matemáticos e engenheiros não gostem tanto, pois trabalham com uma ciência mais exata.

O fato é que este final de semana, eu estava com alguns amigos na praia e a barraca onde estávamos não estava mais alugando guarda sóis, com a justificativa de que estava ventando muito. Como bons observadores, ficamos de olho nas outras pessoas que chegaram depois da gente.

Chegou uma família, aparentemente carioca, que pediu dois guarda sóis e o cara da barraca instalou. Depois, chegou um grupo de cinco mulheres e adivinhem: os guarda sóis foram instalados. E a gente com cara de turista, nada. Já tínhamos pedido pelo menos quatro vezes para duas pessoas diferentes.

Eis que meu amigo de São Paulo solta:

“Qual a probabilidade de eu chamar aquele cara ali, e ele colocar um guarda sol em menos de 30 minutos?”

Eu respondi que diante das informações a priori, talvez ficássemos sem o guarda sol e que a estatística trabalha com incertezas.

Com esse episódio, eu quero trazer para você o quão é importante comunicarmos as incertezas de nossas análises. Para isso vou trazer um exemplo real, que se a comunicação tivesse sido bem feita, as consequências poderiam ser minimizadas.

Fique agora com um trecho do livro “O Sinal e o Ruído – Por que tantas previsões falham e outras não”, escrito por Nate Silver, que fala sobre a inundação causada pelo derretimento da neve, na cidade de Grand Forks.


Em abril de 1997, o rio Vermelho do Norte inundou Grand Forks, na Dakota do Norte, Estados Unidos; rompendo a barragem e avançando mais de três quilômetros sobre a cidade. Embora não tenha havido vítimas fatais, foi necessário evacuar quase todos os cinquenta mil habitantes da cidade, os custos com limpeza chegaram aos bilhões de dólares e 75% das casas sofreram danos ou foram destruídas.

Talvez tivesse sido possível evitar o desastre da enchente, o que não se aplicaria em caso de terremotos e furacões. As barreiras contra inundações poderiam ter sido reforçadas com sacos de areia. Também teria sido possível desviar a enchente para áreas despovoadas – áreas rurais, em vez de escolas, igrejas e casas.

Havia meses que os habitantes de Grand Forks estavam cientes da ameaça. As nevascas tinham sido particularmente intensas nas Grandes Planícies durante aquele inverno, e o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos, prevendo o escoamento da neve derretida, declarara que as Águas do Rio Vermelho subiriam a até 15 metros, quase quebrando o recorde histórico.

Mas havia um pequeno problema. As barragens de Grand Forks tinham sido construídas para suportar uma elevação de até 15,5 metros nos níveis de água. Qualquer erro na previsão de 15 metros poderia ser catastrófico.

Na verdade, o rio subiu a 16,5 metros. A projeção não havia sido nada perfeita, mas um erro de 1,5 metro, com dois meses de antecedência, é bastante razoável – um grau de precisão semelhante à da média histórica dessas previsões. A margem de erro do Serviço Nacional de Meteorologia – estimada pelo resultado de suas projeções anteriores para enchentes – era de quase três metros para mais ou para menos. Isso implicava que havia 35% de chance de que as águas transbordassem.

incerteza
Título: Previsão de inundação com margem de erro
Fonte: Livro “O Sinal e o Ruído”, Nate Silver

O problema é que o Serviço Nacional de Meteorologia explicitamente deixara de comunicar ao público a incerteza da projeção, enfatizando apenas a previsão de quinze metros. Depois, os previsores contaram aos pesquisadores que tiveram medo de que o público perdesse a confiança na projeção caso houvesse qualquer sugestão de incerteza.

Obviamente, a incerteza na projeção teria deixado o público muito mais bem preparado – e talvez capaz de evitar a enchente, reforçando a barragem ou desviando o curso do rio. Deixados à própria sorte, muito habitantes se convenceram de que não havia motivos para a preocupação. (Pouquíssimos adquiriram seguros contra enchentes).

Expressa sem qualquer reserva, uma previsão de quinze metros de elevação no nível da água dava a impressão de que a água chegaria a exatos quinze metros; a barreira que tinha 15,5 metros, seria suficiente para mantê-los a salvo. Houve quem interpretasse que a projeção indicava uma elevação máxima de quinze metros.

“Eis uma piada velha: um estatístico se afogou atravessando um rio que tinha, em média, um metro de profundidade.”

Em média, a enchente poderia alcançar quinze metros segundo o modelo de projeção oficial, mas bastaria uma vazão de água um pouco maior para que a cidade fosse inundada.

Título: Enchente na cidade de Grand Forks em 1997
Fonte: Science for a Changing World

Desde então, o Serviço Nacional de Meteorologia passou a reconhecer a importância de comunicar ao público, com precisão e honestidade, a incerteza de suas previsões. Porém, essa atitude é rara entre outros previsores, especialmente no que diz respeito às projeções para o futuro da economia.